O mercado de cannabis medicinal no Brasil atravessa uma fase de expansão acelerada. Com um mercado endereçável estimado em R$ 12 bilhões, o país reúne condições demográficas, regulatórias e científicas para se tornar um dos maiores mercados do mundo nesse segmento. Este artigo apresenta os números mais relevantes, analisa as tendências de crescimento e posiciona o Brasil no contexto global.
Tamanho do mercado e projeções
O mercado brasileiro de cannabis medicinal movimentou aproximadamente R$ 560 milhões em 2025, segundo estimativas da Kaya Mind — consultoria especializada no setor canábico. Esse valor representa um crescimento de cerca de 70% em relação a 2024, mantendo a trajetória de expansão que o setor apresenta desde 2020.
O mercado endereçável total — ou seja, o potencial econômico considerando todas as condições médicas para as quais há evidência de eficácia — é estimado em R$ 12 bilhões. Essa projeção considera:
- Dor crônica — Atinge cerca de 37% da população adulta brasileira, segundo a Sociedade Brasileira para Estudo da Dor (SBED)
- Epilepsia — Aproximadamente 3 milhões de brasileiros convivem com a condição, dos quais 30% são refratários aos tratamentos convencionais
- Transtornos de ansiedade e insônia — O Brasil lidera rankings globais de prevalência de ansiedade (segundo a OMS), com mais de 18 milhões de pessoas afetadas
- Condições neurodegenerativas — Parkinson, Alzheimer e esclerose múltipla representam um segmento crescente com o envelhecimento da população
A taxa de penetração atual ainda é inferior a 5% do mercado endereçável, o que indica um espaço significativo para crescimento nos próximos anos. Projeções da Prohibition Partners estimam que o mercado latino-americano de cannabis medicinal pode ultrapassar US$ 2,5 bilhões até 2028, com o Brasil respondendo por mais da metade desse valor.
Pacientes e autorizações da ANVISA
O número de pacientes com acesso legal à cannabis medicinal no Brasil cresceu de forma exponencial nos últimos anos. Em 2015, quando a ANVISA publicou a primeira regulamentação para importação de produtos à base de canabidiol, menos de 1.000 brasileiros tinham autorização. Em 2025, esse número ultrapassa 350 mil pacientes com autorizações ativas de importação ou receitas para produtos nacionais.
Autorizações de importação
A ANVISA concede autorizações individuais para importação de produtos de cannabis por meio de um processo administrativo que exige prescrição médica e laudo clínico. Os dados mostram crescimento consistente:
| Ano | Autorizações concedidas | Crescimento anual |
|---|---|---|
| 2019 | ~7.500 | — |
| 2020 | ~18.000 | 140% |
| 2021 | ~37.000 | 105% |
| 2022 | ~70.000 | 89% |
| 2023 | ~110.000 | 57% |
| 2024 | ~160.000 | 45% |
Embora a taxa de crescimento percentual esteja desacelerando — o que é natural em mercados que amadurecem —, o volume absoluto continua aumentando de forma expressiva. A média mensal de novas autorizações ultrapassou 15 mil em 2024.
Produtos nacionais (RDC 327/2019)
Desde a publicação da RDC 327/2019, que permitiu a fabricação e venda de produtos de cannabis em farmácias brasileiras, mais de 40 produtos foram registrados na ANVISA. Esses produtos são predominantemente óleos de CBD com concentrações variadas e podem ser adquiridos em farmácias com receita médica — sem necessidade de autorização prévia da agência.
O canal de farmácias representou cerca de 25% do volume total do mercado em 2025, com tendência de crescimento à medida que mais produtos recebem registro e o custo desses itens se torna mais competitivo frente à importação.
Perfil dos pacientes brasileiros
Dados agregados de plataformas de prescrição e associações de pacientes revelam um perfil diversificado:
- Faixa etária — A maior concentração está entre 35 e 65 anos (58% dos pacientes), seguida por idosos acima de 65 (22%) e crianças e adolescentes (12%)
- Gênero — Distribuição relativamente equilibrada, com leve predominância feminina (54%)
- Condições mais prescritas — Dor crônica (32%), ansiedade e insônia (28%), epilepsia (15%), condições neurológicas (10%), outras (15%)
- Concentração regional — Sudeste (52%), Sul (18%), Nordeste (17%), Centro-Oeste (8%), Norte (5%)
A concentração no Sudeste reflete tanto o maior acesso a médicos prescritores quanto a presença de farmácias com produtos disponíveis. A expansão da telemedicina tem contribuído para democratizar o acesso em regiões mais distantes — tema que exploramos em detalhe no nosso guia para encontrar médicos prescritores.
O Brasil no contexto global
Comparar o mercado brasileiro com outros países ajuda a dimensionar o potencial de crescimento:
Estados Unidos
O mercado americano de cannabis medicinal foi avaliado em US$ 15,8 bilhões em 2025. Com 38 estados com programas médicos ativos e mais de 4 milhões de pacientes registrados, os EUA são o maior mercado do mundo. A taxa de penetração entre a população elegível gira em torno de 8-12%, dependendo do estado.
Alemanha
A Alemanha se tornou referência na Europa ao implementar um sistema de cobertura pelo seguro saúde público (Gesetzliche Krankenversicherung). O mercado alemão movimenta cerca de EUR 500 milhões anuais, com aproximadamente 200 mil pacientes. A cobertura pelo sistema público elevou significativamente a adesão.
Colômbia
Na América Latina, a Colômbia se posiciona como polo de cultivo e exportação, com mais de 700 licenças concedidas para cultivo, fabricação e exportação. O mercado interno colombiano, porém, ainda é incipiente — reflexo de uma estratégia voltada à exportação.
Posição do Brasil
O Brasil se diferencia por combinar uma população grande (215 milhões), alta prevalência de condições tratáveis com cannabis e um marco regulatório em evolução. A principal barreira continua sendo o custo — tema que abordamos em detalhe no artigo sobre custos do tratamento com cannabis medicinal.
Investimentos e movimentações do setor
O ecossistema brasileiro de cannabis medicinal recebeu investimentos significativos nos últimos anos:
- Empresas farmacêuticas — Grandes laboratórios nacionais e internacionais têm investido em pesquisa, desenvolvimento e registro de produtos. O pipeline de produtos em análise na ANVISA ultrapassa 80 pedidos de registro.
- Associações de pacientes — Mais de 80 associações canábicas operam no Brasil, atendendo a um público estimado em 50 mil pacientes. Muitas operam sob amparo judicial para cultivo coletivo.
- Startups de saúde — Plataformas de telemedicina, marketplaces de produtos e soluções de rastreabilidade compõem um ecossistema de healthtechs canábicas em expansão.
- Pesquisa acadêmica — O Brasil conta com mais de 30 grupos de pesquisa ativos em universidades federais e estaduais, com destaque para USP, UNICAMP, UFRJ e UNIFESP.
O que esperar para os próximos anos
Três fatores devem acelerar a expansão do mercado nos próximos dois a cinco anos:
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Novas regulamentações — O debate sobre cultivo nacional para fins medicinais avança no Congresso Nacional e na ANVISA. A autorização de cultivo em larga escala no Brasil reduziria drasticamente os custos de importação e ampliaria o acesso.
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Inclusão em protocolos do SUS — A incorporação de produtos de cannabis em protocolos clínicos do Sistema Único de Saúde (SUS) para condições específicas — como epilepsia refratária — pode abrir um canal de acesso para milhões de pacientes.
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Redução de custos — A competição entre fabricantes nacionais e a entrada de novos players no mercado devem pressionar os preços para baixo, ampliando a base de pacientes que consegue acessar o tratamento.
O mercado de cannabis medicinal no Brasil não é mais uma promessa — é uma realidade em expansão acelerada. Os números mostram um setor que cresce de forma consistente, com fundamentos sólidos e um potencial ainda largamente inexplorado. Para profissionais da saúde, pesquisadores, empreendedores e, sobretudo, pacientes, entender esses dados é fundamental para tomar decisões informadas sobre como participar desse mercado.